uma vez mais, e na continuidade de trabalhos anteriores, pretende-se que o resultado seja um espectáculo dividido em três partes distintas, que de tão antagónicas se complementam e reforçam, onde coabitam as artes plásticas e o cinema, onde a luz e o som, de um modo discreto, aparentemente ausente, se assumem como factores indutores para o espectador e determinam a estrutura do espectáculo. Assim, se a primeira parte termina com a exibição de um filme de curta duração, a terceira e última, será uma instalação de vídeo/luz/som, sendo que no intervalo acontecerá uma intervenção que envolverá o público e os intérpretes. De um modo pouco perceptível, existirá um envolvimento contínuo do espectador, que começa logo que entra no local de apresentação para comprar o seu bilhete, e só termina no momento em que ele abandonar o espaço de apresentação.
não temos Pátria,
temos barbatanas. apesar de ser claramente uma nova criação, este trabalho deverá reflectir tudo o que me interessou nos últimos tempos, que foram anos, e que rondou - a ausência -, tema visto e pensado sobre variadíssimas perspectivas exigindo e respeitando sempre a actualidade, tomando como veículo os meios de comunicação social, analisando a sua silenciosa capacidade manipuladora e dirigista.
- interessa-me puxar o hoje para dentro deste trabalho!
- interessa-me a falsidade da notícia!
são histórias, são situações, são assuntos dos jornais de hoje.
a queda dos objectos e a falência dos corpos de personagens muito instáveis de hoje, podem misturar-se com personagens mitológicas e bíblicas que aparecem e desaparecem, que saltam de intérprete para intérprete esperando do espectador uma leitura feita de conexões entre o que viu, o que está a ver e o que poderá vir a ver. Queremos seduzi-lo e implicá-lo nesta teia, onde existe surpresa e humor, mostrando-lhe pontas e fragmentos, sem lhe passar uma visão imediatamente coerente e completa que lhe permita “estar de fora”.
acredito que esta criação poderá ser o culminar de um longo processo de pesquisa, poderá possivelmente fechar um ciclo onde muitos intervieram directa e indirectamente. Assim, voltarei a convidar alguns intérpretes com os quais já me cruzei noutros trabalhos. Quero aproveitar um percurso comum que já fizemos em torno da “ausência”.
proponho-me trabalhar sobre uma estrutura fragmentada que assenta num discurso fragmentado que continuamente deixa inacabado/suspenso o discurso. Tudo convida ao retorno e permite múltiplos reencontros.
nada deverá ser linear, tudo tenderá para desafiar o espectador a encontrar sentido no que aparentemente pode parecer solto e desconexo, deixando-o suspenso. Gostaria que o que possa acontecer na 1ª parte possa ser “resolvido” na 3ª (instalação) e possivelmente induzido na 2ª (uma performance durante o intervalo). Do objecto à imagem, do movimento à acção, da personagem ao discurso, tudo no decurso deste trabalho deverá aparecer pelo menos duas vezes, em contextos diferentes. Tudo deverá ter um momento complementar.
o percurso de um espectador
virtualquando cheguei ao teatro para levantar a reserva, sem perceber porquê, o foyer pareceu-me um hall de hotel habitado por pequenos grupos dispersos que ocupavam a generalidade do espaço. Dirigi-me à bilheteira e, de repente, dei conta que as disfarçadas e invisíveis colunas de som debitavam um suave e quase inaudível “Every Time we say good bye” do Cole Porter, numa versão de Ella Fitzgerald. Enquanto aguardava que as portas da sala se abrissem, apercebi-me que ouvia uma outra versão daquele mesmo tema, desta vez era Sarah Vaughan a intérprete.
(descrição da 1ª secção da 1ª parte do espectáculo – ntPtb)
(…) sentado, já dentro da sala, depois de ter encontrado o meu lugar, reconheci “ao longe” a voz inconfundível de Kut Elling no “every time”. Parecia-me estar a subir do 8º para o 17º andar, perseguido por aquela ausente mas muito presente música – tipo de elevador. No palco, ainda pouco iluminado, distingui vultos que, quando se fez silêncio e a luz subiu, verifiquei serem 7 bidões e 3 corpos nus deitados no chão, caídos e ”decapitados” por outros tantos bidões que lhes ocultavam as cabeças. 7 distintas unidades - corpo/bidão/microfone - espalhadas pelo palco. Desta primeira imagem branca e plana, inóspita e asséptica ressaltavam 7 estruturas metálicas verticais junto dos bidões, 7 tripés com 2,5m de altura que suspendiam microfones apontados para baixo, na direcção dos corpos.
(…) os palestinianos estão a adoptar uma nova estratégia, espalham nos terrenos baldios do seu território, bidões de petróleo vazios que enchem de terra e onde fixam paus muito altos, verdadeiros obstáculos que destroem as hélices dos helicópteros israelitas, evitando a sua aterragem. in Expresso, 8 de Agosto
numa imagem quase fotográfica, aparentemente estática, um efeito de luz muito discreto, semelhante à rotação do sol durante o dia, desenha no chão cinza claro sombras dos objectos sobre os corpos que se mantêm inertes. Sobrepondo-se às ininterruptas e quase inaudíveis versões do tema de Cole Porter, interrompendo aquele quase silêncio, houve-se aproximar lentamente um helicóptero, um som muitíssimo forte que ilusoriamente atravessa a sala, passa sobre as nossas cabeças e afasta-se, deixando-nos de novo quase no silêncio, com mais uma outra versão do” every time” por Jimmy Scott e uma frase projectada numa ponta do ciclorama, no fundo do palco.
Deus há-de gostar de si.
Amália Rodrigues, in RTP
num cenário branco e visualmente inócuo, impõe-se a ausência do pós- bombardeamento, da explosão. Tudo pára, tudo quase deixa de existir, ficam os terrenos e vigora um silêncio que não é puro. Os corpos que pareciam inertes, caídos no chão, atingidos e decapitados por bidões/barris de petróleo e outros materiais corrosivos e poluentes, que se soltaram do céu ou que caíram do andar de cima, “voltam à vida”, muito, muito lentamente. Recuperam os sentidos enquanto o espectador que foi “bombardeado” pelo som dos motores do helicóptero, volta a ouvir ao fundo outra versão do silencioso e persistente “every time…” de Dinah Washington.
(…)
entre a imagem que acabei de descrever, que marca o inicio da 1ª secção de ntPtb, e a próxima (a que fecha esta 1ª parte) existe um hiato, toda uma parte que está propositadamente por definir, por existir. Este conjunto de secções deverá ser construído com/por toda a equipa de criação, muito particularmente com os intérpretes. Apesar de conhecer já de antemão muitas das frases curtas, sucintas, que retirei de entrevistas e que irei propor para análise, esse é o único material concreto que nos irá servir de ponto de partida. Tanto poderão servir de estímulo e dar origem a pesquisas e a discussões que venham a ser traduzidas em frases de movimento ou em imagens, como poderão ser simples apontamentos que, projectados na tela, complementem e reforcem a cena.
(…)
(descrição da última secção da 1ª parte do espectáculo – ntPtb)
dois homens e uma mulher deslocaram os bidões que estiveram encostados ao ciclorama e voltaram a colocá-los na posição em que estavam inicialmente no palco, quando o espectáculo começou. Deambulam entre estes contentores que têm tanto de inofensivo como de ameaçador, num espaço todo ele branco. Reproduzem uma mesma sequência de movimento, em diferentes direcções, o que lhes permite cruzamentos pacíficos, sem confronto, que dão lugar a cumprimentos, a despedidas, a bênçãos. Frente a frente, dois a dois, param e em simultâneo, fazem descer as suas mãos direitas, do topo das cabeças dos seus pares, passando pela cara e descendo pelo corpo a baixo, como que tacteando o seu par. Eles estão e não estão, são figuras ausentes que tentam conhecer o rosto do outros sem fazer uso dos seus próprios olhos. Nas mãos esquerdas transportam toalhas brancas que repentina e involuntariamente cobrem os seus próprios rostos, retirando-lhes identidade, anulando-os, tornando-os mais ausentes. Ao fundo, num dos cantos do ciclorama surge uma frase que devolve Deus à cena, voltam a evoca-lo como no inicio do espectáculo, no primeiro momento, desta feita ao som da versão pop do “every time…” pelos Simply Red.
Não perdoo o silêncio de Deus!
Madre Teresa de Calcutá, in Público, Out
a frase dilui-se nas imagens projectadas, são excertos de "Jaime" (1974), um filme do cineasta António Reis que nos dá a conhecer não só a obra, como a vida do desconhecido artista plástico, Jaime Fernandes.
é desta forma, observando imagens sépia de homens invisíveis, ausentes, perdidos para si e para o mundo (extra muros de um hospital psiquiátrico) que terminou a primeira parte do espectáculo, mas a música, o “Every Time” continua a ouvir-se dentro e fora da sala, no foyer durante o intervalo.
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