valsa lenta'10

valsa lenta (instalação) abandonados num espaço escuro, pontuado pelos mesmos sete bidões que deixámos em palco no final de ntPtb, a cena é outra, o chão onde assentam aqueles contentores deixou de ser cinzento/neutro (1ª parte) e passou a ser ofuscante, a ter o brilho de uma película platinada. Tudo era simultaneamente novo e conhecido. Os bidões deixaram de aprisionar corpos, como no inicio do espectáculo, e passaram a servir de suporte a televisores que emitem texto, imagens, muitos desenhos de animais-homens de Jaime Fernandes e muita, muita cor. Depois de todos entrarmos, a porta fechou-se e o bater desta foi a dica, o sinal de arranque que pôs tudo em movimento. O som disparou muitíssimo alto, as luzes acendiam e apagavam, como numa discoteca dos anos setenta, sincronizadas com o som de uma banda sonora que por escassos segundos deixava-me reconhecer músicas actuais. De imediato eram interrompidas por outro excerto de outro tema musical. A aparente calma que escondia a tensão da primeira parte do espectáculo dá lugar à festa, à loucura e à confusão. Durante apenas sete, sete alucinantes minutos celebrou-se e viveu-se o muito. Estávamos novamente no palco que parecia outro espaço. Nas quatro paredes eram agora projectadas frases simultânea e ininterruptamente, frases que só consegui ler parcialmente porque havia uma ventoinha que rodava entre o público de forma arbitrária, e que nos impedia de estarmos parados e atentos às mil coisas que aconteciam à nossa volta. Frases curtas e assinadas por gente famosa, que consegui associar a muitas das secções apresentadas na primeira parte do espectáculo. Recortes da imprensa escrita e falada, alguns deles recordaram-me artigos que havia lido nos últimos tempos. Tratou-se de uma instalação com uma banda sonora muitíssimo ritmada, que fez contraponto com o que se ouviu até aí, tanto na primeira parte como no intervalo, muitas, muitas versões do "Every time we say goodbye". 
Aqui, a montagem dos milhentos trechos musicais, serviu de suporte sonoro a uma instalação de vídeos que foi construída a partir do trabalho de dois artistas plásticos - Olafur Eliasson e Paulo Scavullo - como nos informou a folha de sala. Do tecto, no centro do espaço, uma ventoinha suspensa rasga percursos circulares irregulares e desconcertantes por entre o público, sobrevoava a uma altura que nos obrigava a uma constante movimentação, sem nos podermos fixar na leitura das inúmeras frases projectadas nas paredes. 
este objecto voador bem identificado remeteu-me para o início da primeira parte do espectáculo, para o momento em que se ouviu a passagem de um helicóptero a sobrevoar a sala e o palco, espaço vazio onde jazia no chão um conjunto de corpos nus, “decapitados” pelos bidões. Estes deixam de aprisionar corpos para servirem de suporte a televisores que emitem imagens e muita cor. A aparente calma que escondia a tensão da primeira parte do espectáculo dá lugar à festa, à loucura e à confusão. Celebra-se e vive-se o muito, nas muitas frases, na muita cor, no muito som …  
(excertos de entrevistas e outras citações)
o problema está entre o esquecimento e a memória estava morto o corpo morto o medo é a melhor parte de mim o humor e a alegria são coisa muito séria não sou um artista, sou um trabalhador quem tem fé tem humor sem Deus tudo é insuficiente o que temos em comum é sermos diferentes é tão ridícula a existência de Deus como a sua inexistência rezar não é falar com Deus, é compreendê-lo apanhar o comboio para ir a Tarascan ou a Ruan é como apanhar a morte para ir a uma estrela somos todos diferentes mas muito parecidos pelo sonho é que vamos o medo sem objecto é a loucura a terra é mortal somos uma país de opereta eu não tenho medo de mim eu não me vendo barato o problema da esperança é o tempo a memória tem misericórdia de nós eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê eu gozo o pessimismo é uma profecia que se cumpre morrer de ter vivido saúde e baile é o que é preciso olhem para mim, eu estou além! a notícia da minha morte foi um exagero vou suicidar-me por seis meses neste divã assassino-me com facas e pistolas de chocolate que ele me aponta não se pode enganar a vida na ausência também há o que não há faz frio em mim agora que me despeço os das cadeiras lá de trás podem bater palmas, os da frente podem chocalhar as jóias faço o que posso é proibido proibir viver faz mal à saúde a vida é uma doença mortal parem o mundo, eu quero descer ide em Paz …
não sei se começamos pelo fim, se iremos construir do fim para o princípio subvertendo a ordem, ou se será o recomeçar, como se tudo o que vier a acontecer já tivesse existido. 
deste trabalho não sei tudo. Conheço-lhe a estrutura e algumas ideias que deverão ser partilhadas com todos os intervenientes, de modo a construirmos de forma orgânica um espectáculo que eu gostaria que começasse e acabasse com as secções que acabei de descrever, através das impressões e do discurso de um “espectador virtual” que tenho dentro da cabeça, e que me ajuda a construir e a imaginar entusiasmadamente esta minha nova criação. 
no meio existe espaço livre para trabalharmos muitas frases, muitos recortes de imprensa, para lermos muitos livros que serão o rastilho de um trabalho por construir.  
(excertos de entrevistas e outras citações)
falar prejudica o medo sem objecto é a loucura dói-me uma mulher no corpo todo o Mundo correu mal Deus é o caminho mais curto entre o zero e o infinito, tanto numa direcção como noutra rir é deixar-se surpreender por uma negligência das leis morremos e ficamos com a boca toda cheia de terra diante da morte poucas coisas são importantes uma coisa bela é uma coisa para sempre pelo teu amor dói-me o ar, o coração e a sombrinha sou um homem de olhos secos há poucas coisas que justificam a vida, mas nada justifica a morte trágico na política é a ausência de humor ainda não é isto que quero se morreres perdes tudo, senão é muito bom 7 horas 7euros  passámos muito tempo a morrer juntos Deus está mudo eu modifiquei-me tanto que não te reconheci debaixo da burka os sentidos doem a tristeza é a doença dos nossos dias tudo o que vemos é outra coisa a realidade não precisa de mim interessa-me mais a curiosidade que a utilidade a mãe de todos os peixes o futuro mata-nos a realidade partiu o pensamento não é separável do desejo a liberdade do outro estende a minha ao infinito a felicidade é uma ideia nova todas as manhãs, ao espelho, vejo a morte em acção o pessimismo é um luxo dos povos desenvolvidos sim! Ponho tudo em causa, sou fadista sou vocês é preciso ter medo do medo não tomem o elevador, tomem o poder sejam realistas, exijam o impossível
                                              - longe daqui, tudo isto parece um circo !                                                                                                                                                                                           
este trabalho deverá seguir um processo de pesquisa e criação que permitirá desenvolver-se de um modo quase “autónomo”, por necessidade e arrastamento. Cada nova informação exige-nos quase sempre outras fontes que muitas vezes nos obrigam a reformular conceitos e ideias, a nos abrirmos a outros interesses. 
foi nesta demanda que encontrei, pela mão do cineasta António Reis, "Jaime" (1974), um filme que é considerado caso paradigmático na produção cinematográfica nacional e que nos dá a conhecer não só a obra, como a vida do desconhecido, Jaime Fernandes, um beirão que aos 38 anos foi internado no Hospital Miguel Bombarda onde viveu 31, tendo produzido nos últimos 6 anos uma obra que é hoje reconhecida como um expoente da "Arte Bruta" europeia (retrospectiva na FCGulbenkian - 1980). 
as aproximações e os encontros fizeram-se quase sem esforço, aproveitando coincidências. Depois de ter descoberto em “ DE PROFUNDIS, VALSA LENTA” (uma das últimas obras de José Cardoso Pires) um dos textos mais interessantes escritos sobre uma certa ausência, fui surpreendido por uma experiência muito próxima num familiar - um AVC - que lhe deixou intacto "o embrulho", mas que lhe levou grande parte do "conteúdo". Pelo meio surgiu Alice, o primeiro filme de Marco Martins, e com ele o relembrar do caso do Rui Pedro, criança desaparecida em 98. É uma história sobre uma outra ausência que me despoletou vontade de trabalhar sobre memórias e de voltar a pegar em material que durante anos fui colectando, muito particularmente os testemunhos e as entrevistas onde se pode testemunhar o desgaste físico e mental da mãe deste rapaz que, quando desapareceu, tinha 11 anos. 
durante muito tempo acreditei que o cúmulo da ausência era a morte,
 hoje estou certo que é a figura do “desaparecido”. 
acreditando que o cúmulo da ausência é a figura do “desaparecido” e não a morte, encontrei na informação que recolhi um mesmo sentir, a necessidade de manter presente um persistente e recorrente pensamento, quase obsessivo, que se repete, repete, repete... e que analogamente trago para palco com a banda sonora de todo o espectáculo.
 "Every time we say goodbye" de Cole Porter - por variadíssimos intérpretes acompanha o espectador, ainda que dissimuladamente, muito “lá ao fundo”, desde o momento em que compra o bilhete até ao momento em que abandona o edifício onde decorreu o espectáculo. Sem variações de volume, sem nuances, sempre com uma mesma intensidade, um volume baixo que cria condições favoráveis à indução do ouvinte numa aparente abstracção auditiva. Este truque de audição poderá permitir ao espectador experienciar, ainda que despido de toda a carga emocional e salvaguardando todas as distâncias, um pouco do sentir de muitos dos que involuntariamente vivem acompanhados e perseguidos por um mesmo pensamento “obsessivo”, tenha ele origem no desaparecimento de um ente próximo, ou num desvio mental - a alucinação auditiva ou a paranóia.
a construção da outra colagem que serve  valsa lenta, tem como premissa a utilização de músicas que passem diariamente nas rádios, as mais conhecidas. Um som cheio de contrastes com uma atitude impositiva e exageradamente presente. Durante 7 minutos (7 bidões, 7 vídeos, 7,7,7...) vive-se a surpresa, a intensidade, a diversidade e o contraste. Uma mistura alucinante de pequenos trechos, que duram escassos segundos e que só nos deixem reconhecer a música, passando de imediato para outro trecho, para outra composição bem conhecida, obrigando-nos a mergulhar no universo da instalação que só aparentemente marca o final do espectáculo. 

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